segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Olho vivo e pé ligeiro, como dizia o senhor Arthur Imero.

Certo dia de noite. A cidade soturna, com uma aparente ausência de vida mas com o todos os pecados capitais acontecendo. Homens mal-encarados em portas de casas normais, como que porteiros/seguranças, controlando a entrada de estabelecimentos suspeitos. Carros passando lentamente pelas ruas conhecidas, onde as portas para a felicidade instantânea estavam sempre abertas, fossem químicas ou carnais. Em algumas quadras esparsas, bares abertos, com velhos homens sentados ao balcão, bebendo um líquido denso, escuro. O vento arrepiante que gelava a face e fazia o frio ser sentido no começo da espinha. Lá estava ele, parado na esquina, com seu cigarro à mão esquerda. Apenas um fone ao ouvido, o outro pendia à altura do peito, como um pêndulo de um relógio de corda, acompanhando o ritmo de sua última caminhada. Respirava ofegante, queria chegar em casa logo, mas mesmo assim gostava daquela atmosfera noturna. Gostava da noite, de suas bizarrices e figuras esdrúxulas, como as proparoxítonas. Resolveu seguir em frente, já estava há algum tempo a observar o casarão azul da esquina da praça. Havia uma janela aberta e uma claridade aparentemente vinda de uma luz de velas. Ficou parado alguns minutos ali, vendo se aparecia alguém. Lembrava daquela antiga casa de quando era criança e passava por ali com seu avô, que contava histórias macabras sobre o fantasma do aristocrata que ali vivia. Depois de grande, viu o casarão ser reformado pelo governo, foi à re-inauguração, com celebridades da televisão e a high society da cidade. Tudo falso mas elegantemente lindo.
Dobrou uma esquina, duas e teve a nítida sensação de que estava sendo seguido. Olhou pra trás e a única coisa que viu, foi um senhor que caminhava de chapéu e guarda-chuvas a umas duas quadras de distância. Não deu bola e seguiu pra casa. Andou mais algumas quadras e olhou para trás de novo. O senhor agora estava a uma quadra de distância. Apertou o passo. Uma esquina, duas, três, quatro. Duas quadras de casa, olhou para trás. O senhor agora não parecia mais tão senhor assim. Conseguiu identificar o físico de um jovem atleta, por debaixo do paletó. Tirou sua chave do bolso, para agilizar a entrada em casa, não estava confortável com a presença do homem de terno preto, chapéu e guarda-chuvas. Ouviu os passos do homem acelerarem e acelerou junto. Ganhou sua quadra e como num passe de mágica, entrou em casa ofegante. Ouviu mais passos, vozes, tiros, gritos. Foi até a janela, viu outros homens, encapuzados, espancarem o homem que o seguia. O chapéu azul caído ao meio fio, o guarda-chuva em cima de uma grade de bueiro. A última coisa que conseguiu ouvir, foi a voz do velho homem implorando por mais um tiro.

7 comentários:

Gabriele Fidalgo disse...

Caraca, o texto prendeu minha atenção. Gostei de como descreveu os detalhes.

Aliás, parece a trilha sonora parece ser ótima por aqui.

bj

Gabriele Fidalgo disse...

ops. olha o que o sono não faz.

consertando: a trilha sonora parece ser ótima por aqui.*

Sandrine disse...

Tudo o que eu sei é que a música pode até te abandonar de vez em quando, mas a literatura definitivamente não o faz.
Quando escreveres um livro me dá uma cópia autografada?

(L)

Aline Dias disse...

Me de apenas mais um tiro, por favor.

Sobre teu comentário: Gatos são ótimos, independentes, higiênicos o.O
Eles não fazem xixi nos outros, e podes dar um nome bonito, como o meu Ringo tem.

Jan disse...

Alberto, preciso falar-te sobre Show!!!

Como anda a Canastra?


Tem algum mail o qual verifiques periodiamente?

O meu: janice.souza@iob.com.br


^^


Abração!

Sunflower disse...

tudo falso, mas tudo lindo, hein?

beijas

Gabriele Fidalgo disse...

quero ouvir mais músicas tuas.
E tenho dito! :}